Também conheci Dean Moriarty assim que meu pai morreu.
Diferente de Jack, o encontro se deu antes da morte fisica do velho,
um pouco depois da chegada de Al e Park.
Foi um encontro estranho porque eu não pedi pra conhecê-lo.
Ele simplesmente apareceu
e já foi se sentindo à vontade.
Eu fui tomando suas caracteristicas e ele, as minhas.
Dean me ensinou a dizer mais "nãos".
Alertava-me sobre a prestatividade dada por mim
a quem se aproximava com o intuito de me ludibriar.
E me mostrou a importância em ser rude, ocasionalmente, para proteger meus valores.
Ele costumava bater no meu rosto e dizer:
- Até quando você vai obedecer a tudo e a todos?
- Vai seguir à risca a vida que os outros desejam para você?
- Quando vai viver seus sonhos, seu otário?!
O hedonismo era o seu norte.
Me transformei assim, num errante
como Quixote
e usava como estrada,
minha própria utopia.
Comprei seus argumentos
e passei a repudiar os caminhos traçados pelo homem pós-moderno,
que procura o conhecimento desejando status e não como um alicerce para a transformação social.
Busca somente o papel dado
no final dos cursos estipulados
como essenciais na vida de um indivíduo bem-sucedido.
Mas algo ainda me incomodava nele.
A rebeldia sem causa de um utilitarista não me enchia os olhos.
Por isso, nos despedimos no final do verão de 2012,
mesmo com Dean inconformado com meu adeus.
Atravessei a rua e me apresentei à Marighella.
29 de ago. de 2012
25 de ago. de 2012
Modinha

Em tempos de exposição,
só quero uma
grande repercussão
que a citação
procurada com
desmazelo num site de buscas,
provoca
naquele que
como eu,
não está
preocupado com o saber,
Mas sim em
parecer, ser
culto,
erudito.
Se Machado ou
Jorge Amado
fazem aniversário
de morte
espero ter
sorte
de mencionar
alguma frase do finado
que ninguém
tenha postado,
e seja assim,
elogiado.
Não me dou ao
trabalho de ler.
Só digito
Ctrl+C
Ctrl+V.
Pouco importa
as 700 páginas de Crime e Castigo.
Não dou a
mínima para Antologias poéticas
e biografias
longas.
Quero o
prático, o rápido
Que me dê
retorno imediato.
É o suficiente
para impressionar
meia dúzia.
Agora, só não
me peça pra desenvolver
O assunto que
comecei
Só me privo em
dizer: - “Eu sei, eu sei!”
E não o que
sei.
10 de ago. de 2012
Pássaro Azul - Charles Bukowski

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém te ver.
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu derramei whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados do bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí escondido,
quer me arruinar?
quer foder o
meu trabalho?
quer arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto,
e só o deixo sair à noite
às vezes
quando todos estão dormindo.
e digo, eu sei que você está aí,
por isso
não fique triste.
Depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta pouco lá dentro,
não o deixo morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e você?
ninguém te ver.
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu derramei whisky em cima dele
e inalo fumaça de cigarros
e as putas e os empregados do bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito durão,
e digo, fica aí escondido,
quer me arruinar?
quer foder o
meu trabalho?
quer arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou muito esperto,
e só o deixo sair à noite
às vezes
quando todos estão dormindo.
e digo, eu sei que você está aí,
por isso
não fique triste.
Depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta pouco lá dentro,
não o deixo morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e você?
6 de ago. de 2012
Sr. Arkadin - Orson Welles (1955)
Sr. Arkadin promove um baile de máscaras em seu castelo na Espanha. Com o
copo na mão, ele diz aos seus convidados: «Não, não vou fazer um
discurso, vou propor um brinde, em estilo georgiano. Os brindes
georgianos sempre são antecedidos por uma pequena estória... Eu tive um
sonho. Sonhei que estava em um cemitério onde todas as lápides estavam
marcadas de um modo curioso -- '1822--1826', '1930--1934', todas dessa
forma, sempre com um tempo muito curto entre nascimento e a morte. No
cemitério havia um homem idoso. Eu lhe perguntei como foi que ele
conseguiu viver tanto tempo quando todo mundo vivia tão pouco em sua
aldeia. Então ele respondeu: 'Não é que morremos cedo, é que por aqui
nossas lápides não contam os anos de vida de um homem, mas apenas o
período de tempo em que ele conseguiu manter uma amizade'. Um brinde à
amizade».
(Último bloco do antifilme "A sociedade do espetáculo - Guy Debord")
(Último bloco do antifilme "A sociedade do espetáculo - Guy Debord")
27 de jul. de 2012
Breu
Uma vez
quis entender
porque o escuro para as pessoas
é um não-querer.
Se um dia inventaram
que o branco simboliza o que é bom
e preto, o mau
fica fácil entender
porque a degradação do negro em nossa sociedade
é algo tão banal.
Mas o foco dessa poesia é o breu que se apresenta
antes de cairmos nos braços de Morfeu.
A insegurança e a melancolia
que angustia
se dão no apagar das luzes,
pois é o momento em que
mesmo de olhos abertos
só vemos nosso interior.
Numa sociedade
em que a inércia impera
perante a miséria
a culpa é o que resta.
E, assim, o escuro é o que se detesta.
quis entender
porque o escuro para as pessoas
é um não-querer.
Se um dia inventaram
que o branco simboliza o que é bom
e preto, o mau
fica fácil entender
porque a degradação do negro em nossa sociedade
é algo tão banal.
Mas o foco dessa poesia é o breu que se apresenta
antes de cairmos nos braços de Morfeu.
A insegurança e a melancolia
que angustia
se dão no apagar das luzes,
pois é o momento em que
mesmo de olhos abertos
só vemos nosso interior.
Numa sociedade
em que a inércia impera
perante a miséria
a culpa é o que resta.
E, assim, o escuro é o que se detesta.
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