O mais doloroso não foi ver o número de manifestantes reduzidos em comparação ao ato na Presidente Vargas com mais de 1 milhão de pessoas.
O mais doloroso não foi ver alguns gritarem "Sem violência!" para os manifestantes e se calarem diante da truculência da Polícia Militar.
O mais doloroso não foi notar pessoas no ato que se mostravam favoráveis ao fim da corrupção (como se alguém não fosse!) e enrolados na bandeira do Brasil, bradavam em tons ufanistas e integralistas a favor da Nação, em um discurso esvaziado e despolitizado.
O mais doloroso não foi refletir e perceber que o dinheiro do contribuinte é revertido também em armas letais e de tortura contra o mesmo indíviduo que cobra na ruas, o cumprimento das obrigações que o Estado tem com o povo.
O mais doloroso não foi pensar que parte daqueles que se mostravam a favor do ato, acenando das janelas e piscando as luzes de suas casas, chamariam os mesmos de vândalos e vagabundos após lerem sobre o assunto no jornal ou vissem na televisão algo a respeito.
O mais doloroso não foi perceber que a mídia tradicional do Brasil deturpa o número de manifestantes nas passeatas e pouco denuncia as arbitrariedades do Estado e da Polícia.
Tão doloroso quanto, foi ver um rapaz dentro do carro do Corpo de Bombeiros com o queixo ensanguentado após ser atingido por uma bala de borracha.
Tão doloroso quanto, foi visualizar policiais atirando em sequência diversas balas de borracha e soltando bombas de efeito moral no meio da multidão, a esmo.
O mais doloroso não foi saber que um policial do BOPE ria e filmava da caçamba de um carro, o sofrimento das pessoas que estavam ali resistindo.
O mais doloroso não foi saber que os próprios policiais se intoxicavam com o gás lacrimogênio 20% mais potente, comprado por governantes que a essa hora riam em casa da desgraça de todos que estavam ali na Tijuca.
O mais doloroso não foi chegar em casa e ver que no final do jogo a platéia no estádio gritava: "...é lindo o meu Brasil contagiando e sacudindo essa cidade"
O mais doloroso não foi ver Neymar, Fred, Paulinho e Júlio Cesar abraçarem (e um até beijou!) o presidente da CBF, José Maria Marín, ex-ARENA, acusado de desviar dinheiro público e ser um dos incentivadores da prisão do jornalista Vladimir Herzog, morto em seguida nos porões do DOI-CODI.
O mais doloroso mesmo foi ouvir de um prédio pequeno,
de mais ou menos uns 3 andares,
um grito de gol
de algumas pessoas,
indiferentes a tudo aquilo
que acontecia ali embaixo
na Rua São Francisco Xavier.
Isso camarada,
foi o que mais me machucou.
30 de jun. de 2013
28 de mar. de 2013
O menino que jogava botão
Conversando com um ilustrador de um livro que estou organizando, chamado João Francisco:
- Raphael, já que você falou da sensibilidade desta sua amiga, vou te contar uma história que marcou muito.
- Diga.
- Uma vez estava expondo minhas gravuras aqui na Feira Hippie de Ipanema e percebi que alguém olhava com atenção uma ilustração de um menino jogando botão. Futebol de botão, conhece?
- Claro, jogava muito na minha infância.
- Pois é, o homem ficou admirando a figura por uns 15, 20 minutos. Quando cheguei perto dele, fiquei chocado. Era o Fernando Sabino!
- O escritor?
- Ele mesmo. Pensei em interrompê-lo, mas ele estava tão compenetrado que achei iria atrapalhá-lo. Esperei tanto que ele foi embora. Uns 2 meses depois ele voltou e repetiu a cena. Continuou admirando por um bom tempo o garoto se divertindo com o futebol de botão.
- E você foi falar com ele dessa vez?
- Dessa vez fui. Me apresentei, disse que trabalhava com gravuras desde a juventude. Ele me elogiou, disse que sempre passava pela feira e ia indicar-me à conhecidos. Passou mais uns 3 meses, ele morreu. Acho que estava com um câncer seríssimo. Com a sua visita fresca na minha memória, comecei a ler o jornal que falava sobre o seu falecimento. Nisso, vi a foto de sua lápide. Nela estava escrito:
" Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino."
- Raphael, já que você falou da sensibilidade desta sua amiga, vou te contar uma história que marcou muito.
- Diga.
- Uma vez estava expondo minhas gravuras aqui na Feira Hippie de Ipanema e percebi que alguém olhava com atenção uma ilustração de um menino jogando botão. Futebol de botão, conhece?
- Claro, jogava muito na minha infância.
- Pois é, o homem ficou admirando a figura por uns 15, 20 minutos. Quando cheguei perto dele, fiquei chocado. Era o Fernando Sabino!
- O escritor?
- Ele mesmo. Pensei em interrompê-lo, mas ele estava tão compenetrado que achei iria atrapalhá-lo. Esperei tanto que ele foi embora. Uns 2 meses depois ele voltou e repetiu a cena. Continuou admirando por um bom tempo o garoto se divertindo com o futebol de botão.
- E você foi falar com ele dessa vez?
- Dessa vez fui. Me apresentei, disse que trabalhava com gravuras desde a juventude. Ele me elogiou, disse que sempre passava pela feira e ia indicar-me à conhecidos. Passou mais uns 3 meses, ele morreu. Acho que estava com um câncer seríssimo. Com a sua visita fresca na minha memória, comecei a ler o jornal que falava sobre o seu falecimento. Nisso, vi a foto de sua lápide. Nela estava escrito:
" Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino."
6 de mar. de 2013
Um conto de duas cidades
Água forte cai do céu,
pois agora, ele está por lá.
Duas matérias
não cabem no mesmo lugar.
Se a água cai para dar as plantas
vida
Chávez sobe,
deixando dignidade
para muita gente sofrida.
Oprimida pelos novos colonialistas
viram no Comandante, a sua voz
contra ruralistas
lobbistas
e entreguistas.
Neste momento,
a dor fustiga
os novos 2 milhões de alfabetizados
venezuelanos.
Na Cidade Maravilhosa,
o descaso do governo
faz com que a chuva
nos provoque grandes danos.
Zonasulistas e suburbanos
do militante ao que se diz antipolítico.
Todos.
Obrigados a mudarem de planos.
Os inimigos de Hugo
por aqui, esbravejam
diante desses acontecimentos
e ao procurarem culpados
por seus tormentos efêmeros
dão de cara com um grande espelho.
Desses que de tão transparentes
são difíceis de reparar.
Só o notam quando
sabem que,
inevitavelmente,
seu feudo se afetará.
Amanhã é dia de sol
e tudo volta ao normal
no mundinho de quem se alimenta de inércia
e não "faz a hora" contra
o governo local.
Amanhã é dia de sol
para a mídia global,
que não nos mostra o que foi Ponte Llaguno
e ri do lamento geral.
Amanhã é dia de sol.
Dia eufórico para o capital.
A água que cai no sudeste do continente
são das lágrimas de um país
que beira a América Central.
29 de jan. de 2013
A conversão pode esperar
Mestre,
te faço um pedido
alonga essa bossa,
que não saia da nota,
mas preciso de um tempo
para essa levada
eu incorporar.
Nada contra teus comandos
nem teus venenos.
É que vem
como um sentimento,
o batuque autêntico
que você comanda.
Se trocares de nota
ficarei atento aos teus gestos
para que tua bateria
continue exemplar.
Mas entenda meu lado.
Não sou eu que toco a música.
É a música que me toca.
Então me dê uns segundos
para que gire meu mundo
com o suingue
que ela me proporciona
Essa levada me entorpece
vira minha alma do avesso
faz com que muito apreço
chame alguém para brincar.
Grave ou agudo
Caixa, agogô e surdo!
Venham
com o tamborim, conversar!
te faço um pedido
alonga essa bossa,
que não saia da nota,
mas preciso de um tempo
para essa levada
eu incorporar.
Nada contra teus comandos
nem teus venenos.
É que vem
como um sentimento,
o batuque autêntico
que você comanda.
Se trocares de nota
ficarei atento aos teus gestos
para que tua bateria
continue exemplar.
Mas entenda meu lado.
Não sou eu que toco a música.
É a música que me toca.
Então me dê uns segundos
para que gire meu mundo
com o suingue
que ela me proporciona
Essa levada me entorpece
vira minha alma do avesso
faz com que muito apreço
chame alguém para brincar.
Grave ou agudo
Caixa, agogô e surdo!
Venham
com o tamborim, conversar!
6 de nov. de 2012
A simbiose
O cheiro que
incomoda,
impregna
é o do cigarro.
Odor
abjeto
que me tira do sério.
Como podes tú,
com simples movimentos
dos braços ou dos cabelos
gerar aroma tão doce
que ao se confundir
com tais fumaças gris
transforma-se no mais longo sopro da Princesa Primavera?
É confuso
porque sabendo que fumas
meu cérebro já me direciona a ter asco do que está por vir
mas, por sair da tua boca
obrigatoriamente,
gotículas de mel vão de encontro a essa massa de ar cinza.
Desse jeito, a fumaça da cigarrilha
ao chegar nas minhas narinas
se encontra amarela, amarelinha.
E me sinto perplexamente agraciado.
De cinza, nublado
à amarelo ensolarado.
Como podes,tú?
É estranho
pois, é uma sensação de desprazer atraente
Meu olfato ainda percebe o tabaco,
mas ele está envolto pela sua fragrância.
O que me provoca curiosidade
e assim,
busco de forma incessante a origem desses inebriantes ares.
Quando as sereias cantaram:
"Venha para perto!"
Ulisses passou incólume a tentação da hipnótica canção,
por estar amarrado num mastro por seus marinheiros.
Ao te inspirar juntamente com o cigarro,
não quero mais ouvir ninguém dizendo:
"Cuidado! Cuidado! Não estás apressado?"
Entorpecido pela intensidade do seu ser,
jogarei-me de braços abertos
no reinado azul
da sereia que cativa os meus cinco sentidos.
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