11 de mar. de 2011

Diante da Lei (Franz Kafka)


Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.
-É possível - diz o porteiro - mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
-Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta.
Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
-Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.
Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:
-O que é que você ainda quer saber? pergunta o porteiro. Você é insaciável.
-Todos aspiram à lei - diz o homem. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
-Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.

8 de fev. de 2011

O passageiro sombrio


The Dark Passenger

Eu só sei que existe algo sombrio em mim.
E eu escondo.
E certamente não falo sobre.
Mas está lá, sempre.

Esse passageiro sombrio.
Quando ele está dirigindo eu me sinto vivo.
Meio mal de ter essa sensação de estar totalmente errado.

Não luto contra eles, não quero.
É tudo que tenho.
Nada mais poderia me amar,
Nem eu mesmo.

Ou é só uma mentira que o passageiro da escuridão me conta?
Pois existem momentos ultimamente em que me sinto...
Conectado a algo mais, alguém.

É como se a máscara caísse.
E coisas, pessoas, que nunca tiveram a mínima importância...
Passam a ter.
Isso me assusta muito.

Essas coisas me fazem parecer humano,
Nunca achei que poderia me ver humano um dia.
Talvez este dia esteja mais próximo que eu mesmo imagino.

13 de ago. de 2010

Pedido aos profissionais de segurança


Seria interessante imaginar como seria a postura de alguns políticos senão fosse possível contratar seguranças particulares. Penso que os faixas pretas de jiu-jitsu, karatê, kung-fu e os especialistas no manuseio de armas e táticas de segurança podem e devem abrir academias, trabalhar em segurança de boates, em televisões ou em campeonatos de lutas, porém não deveriam assegurar a defesa de representantes que "irrepresentam" os cidadãos .
Quando proponho algo polêmico, ou refuto alguma "tese-senso-comum" assumo toda a responsabilidade pelos meus atos e palavras. Um médico quando comete um erro, ou diz coisas que desagradam um paciente não sai do hospital com uma escolta de protetores e armas apontadas pra todos os cantos. Por que políticos que propõe aumentos exorbitantes dos próprios salários, ou que fazem mais uma CPI terminar em pizza, ou que ratificam a aprovação automática nas escolas do Rio de Janeiro possam ter esse benefício? Acho que todo profissional desta categoria deveria recusar esses empregos por motivos morais!
Isto não é uma ode à violência, não desejo que a população agrida os políticos. Entretanto, custo a entender porque os indivíduos que menos trabalham possuam esta comodidade e os que mais labutam vivem na intranquilidade constante. Será que eles sabem como é para um professor chamar atenção de alunos em uma escola municipal pública no Rio de Janeiro?
O que mais me dói e ver alguns políticos se safando de questionamentos de jornalistas, que representam a voz do povo, usando este artifício. Quem nunca viu um jornalista tomando bordoadas e pontapés de seguranças por fazer aquela pergunta incômoda. Os repórteres do CQC já estão acostumados com tais investidas. E o pior! Os próprios agressores indiretamente são prejudicados com as medidas aprovadas pelos mesmos políticos.
Imaginem a cena: aquele político que aumentou os impostos, ou dançou no Congresso ou que "relaxou e gozou" cara-a-cara com desempregados, controladores aéreos e jornalistas querendo explicações plausíveis por seus atos e falas. Saindo do Palácio do Planalto até seus carros ou suas casas com aquela pressão, aquele mal-estar que fará com que respeitem mais aqueles que os colocaram no poder.

9 de ago. de 2010

Tive uma idéia ... não a tenho mais.


O mundo poderia ser dividido em blocos ideológicos.
Não! Não quero reviver os tempos de Guerra Fria, mas pensei em um mundo onde os Estados - Nações seriam abolidos e as terras repartidas, mais ou menos iguais, entre os diferentes sistemas. Os 6 continentes teriam terras capitalistas, socialistas e anarquistas por exemplo, ficando a cargo do cidadão decidir por volta dos 20 anos de idade, em qual gostaria de viver. Não é uma boa?!
Ninguém precisaria viver forçadamente em um sistema que tenha como foco central o dinheiro e não as pessoas. Em outro caso, o camarada que goste da competição profissional, dos lucros obtidos com as transações econômicas milionárias, moraria feliz na sua respectiva região. Livre de culpa ou de críticos do sistema. O rapaz que não aprecie a interferência do Estado na sua vida, seria feliz vivendo da sua forma, sem polícia o aporrinhando ou livre de pessoas que queiram o possuir ou construir laços sólidos. É simples.
Cada cidadão ao completar seus 25 anos, deveria ter experimentado cada sistema por pelo menos 24 horas (máximo 3 meses) para que sua escolha final seja consciente.
Pra que exércitos? Cada um escolheu o que é melhor pra si, fornecendo sentido a vida da sua maneira. Ninguém precisaria defender ou invadir territórios. Mudanças de opinião poderão acontecer mas deverão ser definitivas. O momento de experiências já passou e a necessidade de integração e ajuda social, faz com que o sistema necessite da pessoa para o seu bom funcionamento. Novas ideologias poderão ser criadas, mas precisarão de um mínimo de adeptos.
Mas existe um problema.
Os socialistas, mesmo que sejam 2 pessoas, conseguiriam viver dentro de sua ideologia. Dividiriam irmamente o que as terras lhe proporcionam e através da colaboração, livre de preconceitos raciais ou classistas, construiriam o necessário para a sobrevivência. Assim, como os anarquistas não dependeriam de outras pessoas de pensamentos antagônicos para seguirem sua vida. Diferente dos capitalistas.
Só há riqueza com pobreza. O poder dos grandes capitalistas se resume basicamente na exploração da grande maioria. A partir do momento que não ocorra acordo entre trabalhador e empregador capitalista, o primeiro estaria livre para escolher outro tipo de vida que sacie seus anseios. Isso atrapalharia bastante as pretensões de muitos que através da alienação e exploração das massas, constroem seus impérios. A saturação dos mercados faria com que os capitalistas buscassem novas terras, novos consumidores e novos explorados para fazer a máquina girar.
O capitalismo não se sustenta sozinho, somente com o sofrimento e exploração da maioria.
O capitalismo não é democrático, é arbitrário.
O capitalismo coisifica os homens e humaniza as coisas.
E eu achando que tive uma grande idéia ...

Dica: http://www.youtube.com/watch?v=Gv5sOw4fI7Y

Golfinhos 1x0 Humanos


Os méritos desta postagem vão para os brilhantes Rômulo Coutinho e Gabriel Uriel. O primeiro por me apresentar a idéia do livro "O Guia do Mochileiro das Galáxias" que foca na busca humana do sentido da vida e o segundo, por mencionar uma vez em uma conversa informal, uma frase dita pelo autor deste mesmo livro, o britânico Douglas Adams:

É um fato importante, e conhecido por todos, que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Por exemplo, no planeta Terra os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tantas coisas – a roda, Nova York, as guerras, etc. -, enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens – exatamente pelos mesmos motivos.

Nesta vida absurda aceitar as próprias limitações e aproveitar o que existe de mais precioso em nossa espécie, me parecem ser as decisões mais sábias. Golfinhos 1x0 Humanos.

Dicas: http://www.youtube.com/watch?v=xlYH-5VUXPQ&feature=player_embedded

http://www.youtube.com/watch?v=RKqTOLAKYhk&feature=related